Amadurecimento espiritual e humano: Um convite à Escuta.

A palavra maturidade vem do latim: maturus: que chegou a ser em tempo determinado.
No dicionário da Língua Portuguesa: maturidade significa: Estado das pessoas ou das coisas que atingiram completo desenvolvimento. Anselm Grün inicia seu livro afirmando que maduro é aquele que chegou a ser aquilo que deve ser e quer ser, de acordo com sua determinação e sua essência; Escolhemos crescer ou não crescer. Por isso cada um tem seu tempo, vive entre o Chronos e o Kairós, procurando tornar visível o que existe dentro dele em “termos de possibilidades e capacidades”; isto se dar quando percebemos em nós ou no outro os florescimentos e frutos. Talvez uma das grandes dificuldades que encontramos na vida religiosa seja de não perceber a graça do tempo oportuno. “Tudo tem seu tempo e há um momento oportuno para cada coisa debaixo do céu!” (Eclesiastes 3, 1ss). “a maturidade se mostra quando temos a capacidade de lhe dar com os nossos problemas e com os dos outros”; quando existe a capacidade de se relacionar bem no trabalho, ter espírito de cooperação e trabalhar em equipe, de contribuir , de fazer críticas construtivas, de aceitar as críticas do outro, de obedecer e se adaptar a novas situações.

“Decisivo para a maturidade de uma pessoa é que ela tenha se reconciliado com a vida e que seja capaz de dizer sim a si mesma, do jeito como é”, procurando ajustar o tempo cronológico com o tempo psicológico (psicoafetivo).  Características da maturidade humana são “serenidade, paz interior, vivacidade e abertura, fecundidade (capacidade de produção) e criatividade”. Se compararmos a vida religiosa ou mesmo o religioso com uma árvore que tem por natureza a capacidade de produzir frutos e não produz devido a sua esterilidade estaríamos indo contra a nossa própria vocação. Os frutos que produzimos devem alimentar nossa comunidade, frutos de uma vinha que no tempo oportuno produz o bom vinho para alegrar os convivas e animá-los a fazer parte de nossa família e nossa história. Em Lc 13:6-9 o Evangelho nos apresenta a seguinte parábola para ilustra a paciência do agricultor. E dizia esta parábola: Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha, e foi procurar nela fruto, não o achando, disse ao vinhateiro: Eis que há três anos venho procurar fruto nesta figueira, e não o acho. Corta-a; por que ocupa ainda a terra inutilmente? E, respondendo ele, disse-lhe: Senhor deixa-a este ano, até que eu a escave e a esterque; E, se der fruto, ficará e, se não, depois a mandarás cortar. O Salmo 1,3 também nos lembra: "Pois será como a árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto no seu tempo; as suas folhas não cairão, e tudo quanto fizer prosperará". Ocupar a terra inultimente significa cumprir sua vocação até determinado momento, ser árvore, porém, depois, não ter a capacidade de gerar frutos.

Por isso, amadurecer no sentido espiritual “significa que cada pessoa leve à plenitude aquela imagem singular que Deus fez dela, que realize seu próprio ser, que encontre a forma a ela destinada por Deus”. Romano Guardini (sacerdote e escritor) disse certa vez que cada pessoa é uma palavra proferida por Deus apenas sobre esta pessoa singular e nossa tarefa consiste em torna perceptível neste mundo esta palavra singular de Deus que se tornou carne dentro de nós. No princípio Deus proferiu a palavra “faça-se” e a luz se fez; proferiu palavras escritas em pedras, mas para serem gravadas no coração (“Esta é a aliança que vou concluir com a casa de Israel: porei minhas leis em suas mentes e as imprimirei nos seus corações”. Hb 8,10); todas suas palavras indicavam ações. Provocou seus eleitos a provocar seu povo eleito; exigiu fidelidade e maturidade; manteve firme em sua Aliança até encontrar a Filha de Sião, filha capaz de assumir um projeto de salvação no qual exigia discernimento, escuta e maturidade. Maria proferiu seu FIAT e o verbo se fez carne. Assim, homens e mulheres, levaram à plenitude a imagem singular de Deus dando forma ao amor que até então esta adormecido em tábuas, faixas, altares e um simples cumprimento da lei. O Amor despertou, pois a humanidade começou a escutar a voz de Deus na voz de seu Filho (Dabhar). No princípio era a palavra (logos) e a palavra estava com Deus e a palavra era Deus (Jo 1,1). O Vocábulo palavra (logos) é empregado pelo evangelista João como um título de Cristo, um título no sentido mais vasto e mais profundo. Esta expressão logos (grego) é usada para traduzir o vocábulo hebraico Dabhar, que quando traduzida por “palavra” significa som compreensível. “somente através da voz de Deus em meu interior posso reconhecer a imagem que Deus fez de mim”.  Escutar é algo precioso e está na raiz de nossa história. Sem a escuta não há discernimento, sem discernimento não há maturidade espiritual. O que foi preciso para que Francisco de Assis proferisse as palavras: “É isto que eu quero! É isto que eu procuro! É isto que eu desejo de todo coração!” (1 Cel 9,22). Foi necessário passar pelo processo da liberdade e da escuta. Nele havia um forte potencial, um coração vibrante e um desejo grande de viver. 
Francisco buscou ideais que não envelhecem porque estes são necessários a todo coração humano: A liberdade e o amor livre. Nas grutas, nos lugares ermos e nos altos montes, entre Assis, Úmbria, Perugia, Gubbio, Greccio... Francisco aprendeu a escutar. A voz de Deus veio ao seu encontro no tormento da dor em uma prisão, nos dias intermináveis em um leito adoentado, escutando a sua voz interior, as vozes que sussurravam ao seu redor na expectativa de seu despertar (sua mãe, seu pai e seus amigos), e em meio a sentimentos e pensamentos, paixões e necessidades, Francisco desperta para um novo mundo.  No balido (som emitido pelas ovelhas e cordeiros) de um sino de leproso em uma estrada única, sem desvios, Francisco experimenta um Deus que vai além das Catedrais, da palavra da Bíblia e da liturgia solene, pela realidade de seu corpo, palpável, verdadeiro, humano, em sua alma e no Espírito de Deus, em um abraço único, mas capaz de fazer florescer em sua vida um novo homem. Francisco encontra-se no ápice de sua maturidade espiritual.  Anselm Grün chama este processo de espiritualidade “desde baixo”, ou seja, temporal em busca com uma espiritualidade “desde o alto”, ou seja, Transcendental. A maturidade espiritual permitiu-nos ligar o céu e a terra. Este processo não se faz em um único passo, mas são passos lentos, muitas vezes ha retrocesso. É preciso primeiro cair por terra, pois todos somos sementes, e esperar o tempo de morrer para nascer, pois sem a morte não há uma nova vida. Aparentemente, Francisco, árvore pequena e frágil que foi não se deixou minguar pelos obstáculos de seu crescimento. Sua folhagem e seu tronco poderiam até demonstrar ausência de grande vitalidade, mas suas raízes eram profundas, e nenhuma ventania , inverno ou árduo tempo de escassez o impediu de dar frutos necessários para alimentar a vinha que crescera à sua volta, os irmãos que dia após dia se ajuntavam, crescendo , florescendo e amadurecendo. Seu grande desafio foi ensinar aos seus irmãos a fazer um caminho de amadurecimento. Não basta somente dar sombra é preciso dar fruto.
          A fraternidade deve efetivamente produzir frutos que sejam curadores. Mas, com certa frequência descobrimos que alguns irmãos ou nós mesmos somos apenas sombras ou folhas ao vento. Devemos esperar o tempo de Deus. O sabor do melhor fruto é aquele que no momento certo convida a ser colhido e degustado. A terra no seu silêncio acolhe a semente. Entre Terra e semente há um som compreensível assim como entre o humano e Deus também há de ser.  Recordemos quemaduro é aquele que chegou a ser aquilo que deve ser e quer ser, de acordo com sua determinação e sua essência”. No alimento quotidiano de nossa vocação o que estamos escutando? Eis o nosso desafio pessoal e comunitário.

Fonte: *Anselm Grün; Christiane Sartorius (Dominicana). Amadurecimento espiritual e humano na vida religiosa.  Paulinas: São Paulo. pp 07 a 12.
*Fontes Franciscanas. Tomás de Celano . Vida I. Ed. Mensageiro de Santo Antônio: Santo André.

 * Frei Donil é formador dos frades estudantes em Teologia

Gostou? Clique no link abaixo e conheça o blog que publicou essa postagem!
Amadurecimento espiritual e humano: Um convite à Escuta

LITURGIA: A SANTA MISSA E COMO SE DEVE OUVÍ-LA, por São Francisco de Sales

A Eucaristia é, na verdade, a alma da piedade e o centro da religião cristã, à qual se referem todos os seus mistérios e leis. É o mistério da caridade, pelo qual Jesus Cristo, dando-se a nós, nos enche de graças dum modo tão amoroso quão sublime.

A oração feita em união com este sacrifício divino recebe uma força maravilhosa, de sorte que a alma, Filotéia, cheia das graças de Deus, da suavidade de seu espírito e da influência de Jesus Cristo, se acha naquele estado de que fala a Escritura quando diz que a Esposa dos Cantares estava reclinada sobre o seu Dileto, inundada de delícias e semelhante a uma nuvem de fumaça que o incenso mais precioso levanta o céu, aromatizando o ar.

Faz o possível para arranjar o tempo necessário de ouvir todos os dias a Santa Missa, a fim de oferecer juntamente com o sacerdote o sacrifício do teu divino redentor a Deus, seu Pai, por ti mesma e por toda a Igreja. São João Crisóstomo nos afirma que os anjos a ele assistem em grande número, para honrar com sua presença este mistério adorável.

Não devemos duvidar que, unindo-nos com ele num mesmo espírito, tornemos o Céu propício a nós, enquanto a Igreja triunfante e militante se ajunta com Jesus neste ato divino, para ganhar-nos nele e por ele o Coração de Deus, seu Pai, e merecer-nos todas as suas misericórdias.

Que dita para uma alma poder concorrer para isso algum tanto, por uma devoção sincera e afetuosa!

Se absolutamente não poder ir à igreja, é necessário então suprires a falta da presença corporal pela espiritual; nunca omitas, numa hora da manhã, ir em espírito aos pés do altar, identificar a tua intenção com a do padre e dos fiéis e ocupar-te com este santo sacrifício, em qualquer parte que estiveres, como o farias, se estivesses na igreja.

Proponho-te em seguida um método de ouvir a Missa devotamente:

a) Desde o começo da Missa até o padre subir ao altar, faze com ele a preparação, que consiste em te apresentares a Deus, em confessares a tua indignidade e em pedires perdão de teus pecados.

b) Depois de subir o padre ao altar, até o Evangelho, considera a vinda e a vida de Nosso Senhor neste mundo, lembrando-te delas com uma representação simples e geral.

c) Do Evangelho até depois do Credo considera a pregação de Nosso Senhor; protesta-lhe sinceramente que queres viver e morrer na fé, na prática de sua palavra divina e na união da santa Igreja Católica;

d) Do Credo ao Pai Nosso (Pater Noster) aplica teu espírito à meditação da Paixão e morte de Jesus Cristo, as quais se representam atual e essencialmente neste santo sacrifício, que oferecerás em união com o Sacerdote e com todo o povo a Deus, o Pai de misericórdia, para sua glória e nossa salvação.

e) Do Pai Nosso (Pater Noster) à comunhão, excita teu coração, por todos os modos possíveis, a querer ardentemente unir-se a Jesus Cristo pelos laços mais fortes do eterno amor.

f) Da Comunhão ao fim, agradece à sua divina majestade, por sua encarnação, vida, paixão e morte e também pelo amor que nos testemunhou neste santo sacrifício, conjurando-o por tudo isso a ser propício a ti, a teus parentes e amigos e a toda a Igreja e, ajoelhando-te em seguida com profunda humildade, recebe devotamente a bênção que Nosso Senhor te dá na pessoa de seu ministro ordenado.

Querendo, no entanto, fazer no tempo da Santa Missa a tua meditação habitual, escusa-te seguir este método. Será suficiente fazer no começo a intenção de assistir a este santo sacrifício, tanto mais que quase todas as práticas deste método se acham sintetizadas numa meditação bem feita.

São Francisco de Sales

Gostou? Clique no link abaixo e conheça o blog que publicou essa postagem!
LITURGIA: A SANTA MISSA E COMO SE DEVE OUVÍ-LA

Quando Eu Morrer: A Vida Após a Morte (por Chesterton)



"Quando eu morrer, o que acontecerá comigo?", respondo tal pergunta com certa relutância, pois em grande parte dos tópicos enviados aos jornais que parecem indiscutíveis, um católico é agnóstico. De fato, o católico é, quase, a coisa mais próxima de um agnóstico, deixado entre o acaso, a religiosidade irracional e irreligiosidade de nossos dias. Um católico concorda com Thomas H. Huxley (1825-1895) sobre o dever de "seguir a razão tão longe quanto vá", e ainda o faz, ao passo que a maioria dos seguidores de Huxley são, agora, seguidores de Henri Bergson (1859-1941), George Bernard Shaw (1856-1950), Émile Coué (1857-1925), sir Arthur Conan Doyle (1859-1930), do grande iogue do país das bananas, ou da senhora Boom do movimento batista do "Balm of Gilead" [bálsamo de Galaad] do Alabama, que pode ser descrito como muito reparador.

O católico também concorda com Huxley ao pensar que sua razão não vai muito longe, sozinha, para solucionar alguns dos problemas que os homens mais querem ver resolvidos, tal como o destino da alma. Mas, acredita que a razão é ajudada (e não contrariada) pela Revelação; ou, em outras palavras, quando seguimos nossa razão, tão longe quanto queira ir, ela se depara, a meio caminho, por assim dizer, com a educação que vem do alto, que lhe completa os resultados com certas verdades essenciais à conduta. Neste sentido, vai além da razão, mas não se contenta com nada menos que a razão, assim como a maioria dos místicos amadores de nossos tempos. Estes se contentam, na melhor das hipóteses, com a simples emoção -- se não a mera afetação. Assim sendo, em nada há um contraste mais acentuado entre o catolicismo e a religião ou irreligião da moda do que na atitude em relação à morte. Seguindo a razão onde quer que vá e ao deparar-se com os sentimentos tais quais são, o católico sente, em primeiro lugar, com relação à morte, o mesmo que o conjunto da humanidade sentiu. Na verdade, o católico ainda é bastante simplista para apresentar-se como um ser humano comum.


A morte é um mistério terrível e alarmante, e uma ameaça a qual somente os tolos poderiam ficar indiferentes. Tememos a morte, mas não temos medo de dizer que a tememos. Tememos a morte, e, como um soldado corajoso disse na batalha, se a temêssemos mais, teríamos de sair correndo. Tomemos o exemplo do sr. Iogue e seus amigos; devo dizer com toda a educação que correrão. Irão se refugiar tanto no auto-engano como no mero esquecimento. De qualquer modo, para os homens, assim, tão tementes, e ainda diante do fato da morte, veio uma boa notícia, um Evangelho, que é algo bom, mas também novo; algo que não poderiam obter por nossos próprios meios. Esse Evangelho diz aos homens, definitivamente, embora sem grandes detalhes, que o segredo de Deus é um selo de justiça e misericórdia, e para aqueles que lutam corajosamente há a vitória no além-túmulo. Os católicos sustentam (geralmente por outros motivos, baseados pela confirmação de centenas de outros âmbitos e fatos) que a autoridade que o consola é a verdadeira autoridade, e são, portanto, consolados. Mas não perdem, ou fingem perder, o pavor humano e natural dessa alteração terrível, daquele local onde o poeta pagão A. C. Swinburne (1837-1909) disse: "Deus destinou como símbolo a escuridão que faz temer".


Agora, quando nos voltamos para falar dos "modernos", não nos parecem falar como homens. Não falam como falavam os pagãos, os poetas, como realmente falam as pessoas comuns. Os porta-vozes da modernidade se dividem em dois tipos. Em primeiro lugar, temos o materialista moderno, que sempre insiste em explicar que não "quer" a imortalidade. Diz isso com uma fanfarronice desesperada, como o fez um ex-padre noutro dia, que sabe que morrerá como um cão, daqui a alguns anos e não se importa. Aqui, como em muitas outras coisas, Huxley, o pai do agnosticismo, teria dado uma lição mordaz nos agnósticos. Huxley, com realismo e sinceridade, diria, muitas e muitas vezes, que queria muitíssimo a imortalidade, que temia por demais a ideia de extinção, mas que não via seus desejos terem relação alguma com a determinação do destino.


No entanto os modernos não podem concordar com essa atitude humana e estoica. Eles nos dirão, repetidamente, que a morte é o fim de tudo que amamos, e, portanto, não precisamos nos importar se isso acontecerá ou não. De uma forma um tanto absurda, professam que os sacerdotes e os credos inventaram a emoção que faz com que o gato corra do cachorro. Fingem que o homem não perderá nada, ao perder tudo. Isso é absurdo, e, certamente, não é agnosticismo. Isso não é paganismo. Isso não é aquilo que Homero queria dizer ao afirmar que era melhor ser um camponês labutando no campo do que ser um famoso rei dentre os mortos. Não foi isso o que Huxley quis dizer, a respeito da extinção, "preferiria estar no inferno, é muito melhor". Em segundo lugar, temos outro tipo moderno, que diz justamente o oposto, mas está igualmente confortável, e, para nós, igualmente destituído de conforto. Uma atmosfera "ocultista" produz uma espécie generalizada de otimismo espiritual e idealismo que toma a imortalidade como algo imediato e óbvio. Este tipo está bastante confiante de ser um corpo astral da mesma forma que os demais homens estão contentes em não ser nada além de um corpo. Os espiritualistas e ocultistas desse tipo nos dizem que a morte não é nada demais. Eles a chamam de mera "passagem". Dizem ser algo como "ir para o andar de cima". Novamente, as pessoas são convencidas, pelas mensagens das sessões espíritas, de que, realmente, não há separação alguma, nenhuma diferença, absolutamente nenhuma razão para o auto-questionamento. Um homem perguntou aos espíritos se era errado destruir a vida dos animais, e recebeu somente a alegre resposta: "Nunca podes destruir a vida". Como questão moral, parece que fica a dúvida se o ético é ser errado atirar num tigre ou se é certo atirar no fiscal de impostos. Mas, como questão filosófica, esse é um exemplo típico do tom invariável. O homem não é somente imortal, mas obviamente imortal. A vida não é somente contínua, mas continua praticamente sem ruptura. De fato, o tom dos espíritos e dos espiritualistas é muito parecido com o do meu amigo E. C. Bentley (1875-1956), ao meditar sobre William Wordsworth (1770-1850), num pensamento imortal, um fragmento, creio, nunca antes publicado: "É pena, certamente, / Que dois homens como nós, / Por um nada como 'A Cova' / Devamos ficar à sós". Porém, o que foi dito com graciosa ironia, tais pessoas falam com genuína e colossal solenidade.


Agora, para o instinto católico, ambas as coisas soam falsas. Não digo que sejam decepções, salvo se auto-decepções; mas digo que são afetações. Os dois homens estão tentando impressionar. Estão se pavoneando, quer finjam ser indiferentes à mortalidade, quer finjam estar satisfeitos com a imortalidade. Naturalmente, não sentem, desde o início, a coisa dessa forma, absolutamente não a sentem assim, no fundo de seus corações. Coloque uma pistola, de repente, na cabeça de um cético e ele não ficará indiferente à ideia de morrer como um cão. Diga ao marido espírita, na lua-de-mel, que a esposa acabou de fazer a "passagem” ao cair de um penhasco, e ele não sentirá como se ela tivesse ido "para o andar de cima". Por essa razão, nossa religião, que é, acima de tudo, realista, se recusa a aceitar tais confortáveis simplificações. Simpatiza com todos os pesares e medos secretos. Mas também os enfrenta e não teme o medo. Portanto, sua forma de funcionamento típico não é batucar numa mesa ou num pandeiro dizendo que tudo no jardim do vizinho é adorável, ou dizer a um moribundo, com um aceno alegre, que ele só está "indo para o andar de cima": mais do que consolá-lo, dizer-lhe que está morrendo como um cão, para ilustrar o grande princípio cósmico de que todo cão tem seu dia. O oposto disso, é representado pela passagem -- creio que de um dos romances de Harold Frederic (1856-1898) -- em que um pedreiro irlandês pobre, insignificante e sem nome caiu de um andaime, e o autor cético fica quieto, numa espécie de pasmo ou assombro, diante do ritual que se desenrola ao redor do morto, para igualar-se ao heroísmo pavoroso daquilo que era pedido a ele, como se a mãe de Deus descesse do Paraíso e o chefe das milícias celestes colocasse todos os anjos prontos para o combate ao toque do clarim e da espada, e os querubins, os serafins, os santos, os mártires e todo o divino universo se tornassem uma montanha ou uma pira ardente de orações, para ajudar Pat Murphy a morrer.


E, assim como o catolicismo é sincero sobre o medo da morte, da mesma forma, é realista a respeito da idéia de julgamento. Devemos sempre lembrar que a Reforma, o verdadeiro e original ataque puritano à Igreja, literalmente, foi derrubada um tanto de supetão. Ou seja, foi transformada numa completa desordem, algo como voltar para a batalha se erguendo com a cabeça, porque não existe mais uma perna em que se apoiar. Em outras palavras, o que tais pessoas dizem atualmente está em manifesta contradição com o que disseram então. O que disseram era que o Inferno esperava e encarava cada pessoa que não estivesse imediatamente apta para o Paraíso. Disseram que qualquer coisa que lhes parecesse possuir ainda que a menor noção de uma segunda chance, de uma educação posterior, de um local de arrependimento ou espaço para o aprimoramento, era uma superstição sentimental dos papistas: "uma coisa adorável inventada em vão".


Naqueles dias, em suma, diziam que o que não podiam acreditar era no Purgatório. Atualmente, não acreditam em nada mais além do Purgatório. Não acreditam em nada senão no progresso eterno, o que significa o eterno purgatório. Inicialmente, os reformadores recomendaram à Igreja largar a ideia de Purgatório e se manter fiel à ideia de Inferno e, atualmente, os novos reformadores ordenam que se largue o Inferno e nos atenhamos ao Purgatório. Uma simples alteração, e a Igreja se acostumará com isso. Igualmente, não duvido, alguma seita futura irá ordenar que a Igreja elimine os querubins, mas mantenha os serafins, e mais tarde (numa outra reflexão), que elimine os serafins e mantenha os querubins, pois esse é o tipo de esporte de que o mundo nunca se cansa. Mas embora acreditemos no progresso ou na educação no além-túmulo, fomos prejudicados por acreditar nisso quando nossos críticos caprichosamente negavam; também acreditamos que havia um propósito último, e que o homem pode alcançá-lo, e que, finalmente, pode negá-lo ou recusar a alcançá-lo. E se nos perguntassem por que um católico acredita numa potencial danação (em especial, na sua), a resposta, nas palavras com que comecei: porque acredita no seguimento da razão onde quer que vá, e porque, quanto mais o faz, ela aponta na mesma direção que a autoridade da Igreja.


Acredito que o mal é real. Diria que sei que é real. Não me orgulho em saber disso, muito ao contrário, tenho vergonha, pela mesma razão de que tenho certeza: porque já o encontrei na pessoa que conheço melhor. E, ao conhecer o mal como se apresenta em mim, sei muito bem que poderia ter seguido na direção da destruição de todo o bem, caso minha razão seguisse aquele processo, onde quer que ele fosse parar. Recordo-me do período de provocação mórbida e distorção imaginativa de minha juventude, que facilmente poderia ter parado em mero diabolismo, caso tivesse seguido minha imaginação onde quer que ela me levasse. Seria bastante dizer que vi que a tendência em pensar todas as recusas otimistas dessa possibilidade, é, desprezivelmente, superficial. E, naquilo que vi do mundo, desde então, há evidências de algo "pior", que essas boas pessoas ignoram. Nenhuma delas entende, por exemplo, que o diabólico não é, simplesmente, a busca do mal, mas a profanação do bem a serviço do mal.


O diabólico aprecia o bem, e até mesmo a bondade do bem, como algo que tem o prazer de parodiar, atormentar ou corromper. Não é necessário, portanto, e é inútil lhe oferecer, simplesmente, mais bem para que possa parodiar, atormentar ou corromper. Lembremo-nos disso ao ler, por exemplo, a estória de sir Arthur Conan Doyle sobre um "espírito das trevas" que foi convertido por um clérigo espírita, que lhe convenceu a respeito do poder do amor, e creio que o leitor entenderá o que quero dizer por superficialidade. Caso o espírito tivesse ficado menos malévolo a ponto de desejar que um gentil sacerdote lhe "dissesse umas poucas palavras", não nos pareceria que fosse muito perverso. O gentil reverendo pode ter tentado ser uma espécie de "algodão entre cristais", mas falar dessa forma com um espírito escarnecedor teria sido exatamente colocar lenha na fogueira. Se o leitor ou eu, que não somos (espero) demônios, podemos, às vezes, rir ou mesmo bocejar naqueles sermões a respeito do amor, o que um espírito realmente "das trevas" diria disso? Pode ser que diga a sir Arthur Conan Doyle, bem voluptuosamente, "Por favor, mande-me outro daqueles sacerdotes engraçados".


Ao seguir nossa razão onde quer que vá, portanto, vemos que a prorrogação da vida pode ser, possivelmente, a extensão do mal, assim como a do bem, e isso dá um tom muito diferente às esperanças de ampliá-la aos outros na forma de bem: seja como purgatório ou bem progressivo. Com um pouco mais de humildade em nossa esperança, e um pouco mais de gratidão em nossa fé, então, poderá haver também esperança e fé para aqueles que acreditam que os espíritos das trevas não oferecem perigo algum e que podem ser iluminados com facilidade. Mas, enquanto vivermos numa atmosfera moral que trata a morte e o mal como fato, e não tivermos a vantagem de que qualquer modismo passageiro nos convencerá de que um ou outro está na moda, temos a vantagem de sentir nossa fé também como fato. Um fato muito antigo para ser confundido por coqueluches. Com base nas quatro pedras fundamentais da razão e, acima delas, nos torreões da autoridade, podemos alçar o homem alto o bastante para ver, como uma tênue silhueta, mas não como miragem, as praias do outro mundo.



 G. K. Chesterton * 1874 / + 1936 
Traduzido do inglês por Márcia Xavier de Brito


O artigo foi publicado originalmente na edição de 22 de novembro de 1925 do jornal "The Weekly Dispatch".

Em língua portuguesa o artigo foi publicado, numa versão acrescida de notas da tradutora, no seguinte periódico: "COMMUNIO: Revista Internacional de Teologia e Cultura", Volume XXVIII, Número 3 (Edição 103), Julho / Setembro 2009: 671-676.

Gostou? Clique no link abaixo e conheça o blog que publicou essa postagem!
Quando Eu Morrer: A Vida Após a Morte

Inscrições da JMJ Rio2013 começam dia 28 de agosto



 Capa do Manual de Inscrições de Peregrinos

A partir da próxima terça-feira, 28, os jovens de todo o mundo poderão fazer suas inscrições para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), que acontecerá de 23 a 28 de julho de 2013, no Rio de Janeiro. As informações necessárias para efetuar o cadastro corretamente podem ser encontradas no Manual de Inscrições do Peregrino, no site oficial da JMJ.

Acesse
.: Manual de Inscrições de Peregrinos

.: Todas as notícias sobre a JMJ Rio2013

"A inscrição no portal oficial da JMJ Rio2013 representa uma pré-reserva. A confirmação da inscrição é o pagamento", explicou a diretora do Setor de Inscrições da JMJ Rio2013, Irmã Maria Shaiane Machado. Com a pré-reserva, o peregrino poderá optar pelo seu pacote - alojamento, alimentação, seguro, kit, etc., - e a comissão organizadora do evento poderá se organizar para acolhê-lo.

Desde o último dia 31 de julho, está disponível online o Manual de Inscrições de Peregrinos. Nele estão todas as orientações necessárias para preparar da melhor forma o grupo. As inscrições serão feitas em grupo por meio de um responsável (chamado de “responsável principal”). Além desse, haverá um “segundo responsável”. Para grupos mistos, preferencialmente um responsável masculino e um feminino.

Os valores têm variações, tanto da modalidade dos pacotes (que poderão ou não incluir hospedagem e alimentação), quanto por classificação dos países. Para ajudar que peregrinos de países economicamente mais pobres possam participar das JMJs, eles são classificados nas classes A, B e C.

 A classificação dos países e os tipos de pacotes definem os valores. Serão 21 tipos de pacotes com valores que variam de R$ 100,70 a R$ 577,60. Esses valores são válidos até 31 de janeiro de 2013, incluindo um desconto de 5%. Após esse período, as variações são de R$ 106,00 a R$ 608,00.

Os grupos deverão ter até 50 peregrinos, incluindo os responsáveis. Grupos maiores deverão ser divididos em subgrupos de até 50 pessoas, que poderão estar vinculados entre si por um grupo principal. A vinculação entre os grupos não garante que todos ficarão juntos. A hospedagem oferecida pelo COL será por região linguística. Também outros fatores podem ser decisórios, como por exemplo, a distância dos pagamentos entre os grupos.

As inscrições serão realizadas exclusivamente online, através do portal oficial da Jornada - www.rio2013.com. "Incentivamos a todos a fazerem inscrições em grupo, que podem ser formados nas paróquias, comunidades, movimentos católicos, escolas, universidades", diz irmã Shaiane.

Os candidatos ao voluntariado que não forem selecionados deverão fazer a inscrição como peregrinos.

 Site oficial da JMJ Rio2013

Gostou? Clique no link abaixo e conheça o blog que publicou essa postagem!
Inscrições da JMJ Rio2013 começam dia 28 de agosto

Vestes Litúrgicas Sacras

 “Apresentaram o tabernáculo a Moisés: [...]41. as vestes litúrgicas para o serviço do santuário, os ornamentos sagrados para o sacerdote Aarão e as vestes de seus filhos para as funções sacerdotais.42.Os israelitas tinham executado toda essa obra conformando-se exatamente às ordens dadas pelo Senhor a Moisés”.Ex. 39, 33-42.

Muitos católicos, não fazem idéia do motivo pelo qual nossos ministros ordenados (diáconos, presbíteros e bispos) usam vestes apropriadas, chamadas vestes litúrgicas ou vestes sacras. E menos ainda o nome de cada peça. Por este motivo, neste artigo começamos a apresentar essas vestes, de acordo com o grau do ministro.

Antes de vestir cada peça o padre proclama uma pequena oração, mostrando o valor e o sentido de cada uma dessas peças.

A estola: é aquela faixa que o padre coloca sobre os ombros, caindo sobre o pescoço, formando duas faixas paralelas. Significa a dignidade, a autoridade do sacerdote. As duas faixas paralelas significam o Antigo e o Novo Testamento: as duas grandes alianças que Deus fez com a humanidade.

O padre jamais pode celebrar a missa sem estola, pois um padre sem estola é um padre sem o poder sacerdotal investido por Cristo.

O amito: é uma peça que envolve o pescoço e fica debaixo da Alva ou da túnica. Ele serve para encobrir as vestes usuais do padre. Representa o elmo da salvação que defende o Sacerdote das insídias de Satanás.


A alva: é a roupa branca que o sacerdote veste sobre o amito que também é conhecida como túnica, e sua cor deve ser somente branca. Simboliza a pureza de coração com que o Sacerdote deve se aproximar do altar e representa também a túnica branca com que Cristo foi vestido, por ordem de Herodes, para designá-lo como louco.

O cíngulo: é um “cordão grosso” que o padre amarra na cintura, sobre a alva e sobre a estola. O cíngulo é símbolo da Consagração Sacerdotal: o padre não pertence mais a si mesmo, mas está reservado para Deus. Representa a mortificação necessária para a conservação da castidade. Representa também a corda com que Nosso Senhor foi amarrado, quando foi preso.Pode ser branco ou assumir a cor do tempo litúrgico.


A casula: é a última peça sacerdotal a ser vestida. Tem a mesma cor da estola e significa o poder de rei que Cristo tem. Antes, simbolizava o isolamento do sacerdote em relação ao mundo. Hoje é tida como uma veste de luxo, que quando utilizada representa todo esplendor de Cristo.


Pluvial: é um grande manto utilizado em Missas solenes, no qual muitas vezes há procissões. Sua origem remonta ao uso de uma capa para proteger o sacerdote da chuva.


Véu Humeral: é utilizado pelo Sacerdote nas bênçãos, transladações e procissões do Santíssimo Sacramento. É de seda, branca quando se trata do Santíssimo Sacramento, e da cor dos paramentos, na Missa solene.


Barrete: Tem uma função de autoridade. Todo clérigo pode utiliza-lo, no entanto sua cor varia de acordo com a posição do mesmo.


Fonte: doutrina católica

Gostou? Clique no link abaixo e conheça o blog que publicou essa postagem!
Vestes Litúrgicas - Sacras